De Amsterdam, Pixel fala sobre sua residência em entrevista a Julia Bac: “nesses workshops, vamos com as pessoas apresentar o projeto e produzir conteúdo nas ruas”

Depois de estar duas semanas na Holanda você acredita que o fato de estar aqui influenciou na maneira como você trabalha normalmente?

O projeto que eu estou fazendo é em conjunto com o Sander. Não acho que o ambiente está influenciando  tanto nesse processo de decisão mas o jeito do Sander é diferente do meu. O que é legal é que eu quero experimentar o jeito que ele está fazendo as coisas aqui e ele quer experimentar o jeito que nós fazemos as coisas lá. Porque existe uma realidade diferente aqui em relação a cultura de mobilidade. Não só em relação a conexão, mas aqui as pessoas tem mais acesso a tecnologia efetivamente. Eu tenho a impressão que aqui é mais simples acessar as pessoas com um projeto que é feito para celular e lá é mais difícil.

O processo de visitar os museus e de visitar outros espaços, ou seja as atividades culturais que estou fazendo aqui me trazem novas idéias. A experiência de conhecer a cidade, não só de ter tempo livre e de pensar o projeto em outros ambientes, também influencia o projeto. Mas isso só será visto lá na frente com o software desenvolvido e a gente começar a alimentar o conteúdo desse software.

Qual é o status do projeto agora?

O que queremos fazer já está definido em âmbitos gerais. As premissas do projetos já estão bem definidas. Agora começa uma etapa de experimentar o projeto. Experimentar recursos e possibilidades de interação, é o desenvolvimento de um protótipo. O que der certo, a gente vai manter no primeiro protótipo do projeto. Eu diria que esta é uma fase de prototipação processual e experimental.

Vocês irão desenvolver dois projetos. O que levou a fazer dois projetos e não escolher um só?

Havia uma vontade minha de experimentar esse ambiente online daqui, criar uma coisa que fosse boa pra cá e uma vontade do Sander de criar uma coisa que funcionasse bem no Brasil.
O primeiro projeto é o “Powerpoint Walks” que está mais dentro do escopo da proposta que eu propus e o que o Sander propôs inicialmente para a residência em realidade aumentada. O segundo é com tecnologias móveis, mas não de realidade aumentada.
O segundo será feito se tudo estiver andando bem com o primeiro.
Nós queremos apresentar informações que modifique a maneira com que as pessoas se relacionam com o espaço, essas informações podem ou não ser histórias. Nós temos pesquisado dados abertos, dados públicos que poderíamos usar. Mas, até o momento não achamos nada que pudesse ser efetivamente relevante. Então, há um desafio aí… é uma coisa que queríamos tentar. Mas … Bom, a Annet (uma das organizadoras do projeto) já tinha colocado isso lá atrás, que seria difícil encontrar dados que seriam interessantes para estimular as pessoas interagirem com o sistema. Estamos justamente caindo nesse ponto.
Na última sexta feira, nós definimos as prioridades de desenvolvimento. O que deve ser feito primeiro e o que será feito depois. Quais são os recursos iniciais e quais são os acessórios, aí seguimos etapa por etapa.

E quais são essas etapas?

A primeira etapa seria criar o primeiro demo do projeto. Ou seja, criar uma estrutura com a idéia do projeto. Esse demo inclui o básico, a apresentação do conteúdo para o usuário, que é de certa forma uma interação. Esse primeiro conteúdo são textuais ainda. A partir daí, queremos pensar outros tipos de conteúdo: gráficos e de duas ou três dimensões, e também pesquisar mais sobre dados abertos. Isso tudo ainda é experimentação. Definir o que funciona e o que não funciona. Terminando essa etapa, nós escolhemos o que ficará no projeto. E, a partir daí, construiremos o sistema de gerenciamento de conteúdo para  permitir que as pessoas possam colaborar com o projeto. Depois, pensar como as pessoas poderão interagir entre si através do sistema, criar diálogos ou fazer com que as obras que estão dentro do sistema dialoguem.
A partir da etapa do desenvolvimento do CMS, já é a implementação. Depois disso começamos a fazer os workshops.

A idéia para aproximar o público é através dos workshops?

Inicialmente sim. Nesses workshops nós vamos com as pessoas apresentar o projeto e produzir conteúdo nas ruas, iremos passear com as pessoas nas ruas. O nosso desejo é que isso estimule as pessoas a continuar a produzir e falar para outras pessoas sobre o projeto. A partir desse momento de implementação de CMS já começamos a circular e colocar conteúdo nosso, mas isso é paralelo.

No Brasil você trabalha com uma equipe. O que você está achando de trabalhar com as pessoas daqui, que você não conhecia e também não escolheu?

No Jandig a gente fez uma chamada aberta. Eu conheci as pessoas durante o projeto, portanto a experiência de trabalhar com “desconhecidos” já aconteceu ali. Mas, como o Jandig foi um processo aberto, as pessoas mudavam o tempo todo. Pessoas novas iam aparecendo ou outras iam indo embora. Aqui não, aqui eu e o Sander temos um compromisso com o projeto. Apesar de ter sido uma sugestão dos organizadores, eu e o Sander decidimos trabalhar juntos e trocar experiências, e eu acho que os dois gostaram muito dessa experiência.
Eu gosto de trabalhar de casa, de silêncio, e eu tenho a impressão que o Sander também. Se estivéssemos trabalhando em diferentes projetos seria mais difícil desenvolver este intercâmbio na residência.

Na primeira entrevista você mencionou que queria se “desconectar” um pouco do Brasil, você conseguiu isso?

Menos do que gostaria. Eu consegui dar uma desconectada. Morar num lugar diferente já é uma boa desconectada de lá, e se conectar em coisas daqui.

Você acha que conseguiria planejar e pensar na proposta se você não estivesse aqui?

Não. De lá eu não teria essa experiência de residência. Se começasse ao contrário seria muito mais difícil para mim, tendo compromissos e pessoas tentando me contatar. É bem mais difícil quando se tem uma agenda. Eu planejei para este mês me dedicar ao projeto e o Sander o mês que vem, que é quando ele vai para o Brasil.

Em um de seus videologs você comenta sobre seu processo de criação…

Eu acho que no final das contas eu estou trabalhando da maneira que eu trabalhava antes. O Sander comentou que ele cria o conceito primeiro.  Mas, as idéias estão transformando muito, novas idéias surgem o tempo todo. Algumas idéias a gente descobre que não são tão boas e agente vai definindo o que priorizar. O trabalho está se transformando, transformando bastante, inclusive.

Qual foi uma idéia não tão boa?

A proposta de trabalhar com dados abertos inicialmente parecia uma ótima idéia, e agora estamos vendo que não é tão boa.

Você comentou que alguns dados que vocês encontraram não são interessantes. Quis são os dados que não são interessantes?

Mostrar para as pessoas quanto o governo gastou em cada obra, por exemplo. Um viaduto, quanto custou para construir? Isso pode chegar a fazer parte do projeto, mas não estimula as pessoas a interagirem com o projeto… Falta alguma coisa. Na verdade, nós estamos com uma dificuldade em encontrar dados. Estamos conversando com pessoas que trabalham com dados abertos no Brasil, pedimos informações sobre quais os dados que seriam interessantes. Mas elas ainda não retornaram. E se elas não retornaram é porque provavelmente estão tendo dificuldade de encontrar os dados que procuramos. É porque para poder fazer sentido, dentro das limitações tecnológicas existentes, esses dados precisam ser bem específicos. Relacionados a áreas específicas de uma cidade. Essa especificidade não é simples de achar, e existe também uma dificuldade de como lidar com essas informações.

Vocês escolheriam os mesmos tipo de dados na Holanda e no Brasil?

Umas das coisas que, pelo menos eu, acho interessante é um projeto que ligue os dois países. Mas, ainda não achamos nada especificamente que faça essa conexão. Uma das coisas que queremos fazer é apresentar visões diferentes da cidade: eu apresentar a minha visão de Amsterdam e o Sander apresentar a dele de São Paulo. Mas é uma conexão nossa com a cidade e não de uma cidade com a outra, ou de um país com o outro.

Vocês apresentaram o projeto para algumas pessoas. Qual foi o feedback mais significante que vocês tiveram até agora?

As pessoas não chegaram a dar um feedback que modificasse completamente o projeto. Ninguém disse “porque você não faz assim…”. Eu acho que as pessoas ainda precisam ver o que vai ser, só explicar não é tão simples. Por isso é importante trabalharmos na demo.

Qual é a meta para as duas últimas semanas?

Desenvolver o protótipo. Eu acho que o mínimo é ter o protótipo funcionando do jeito que queremos. Eu gostaria de chegar a esse ponto aqui, para que possamos ampliar o protótipo lá. Então a meta é essa, chegar a esse protótipo de maneira que eu consiga fazer o meu passeio pela cidade aqui e colocar a minha experiência no sistema, mas dependendo das dificuldades que tivermos durante o processo de trabalho e o que descobriremos, podemos ou não finalizar o protótipo. Ou talvez ter uma grande virada e decidir fazer algo diferente.

Como seria esse protótipo?

Seria fazer o sistema funcionar, só que alimentado só por mim e pelo Sander, sem que outras pessoas possam participar ainda.