A artista Paloma Oliveira mediará amanhã uma oficina de construção de projetores portáteis DIY no CEU Jaçanã. Por isso, a equipe do Labmovel lançou uma série de perguntas e respostas:

Equipe Labmovel: como foi sua aproximação ao vídeo? conte um pouco sobre o começo do seu trabalho artístico.

Paloma: Começou com um amigo. Quando eu tinha 16 anos ele estava na faculdade de comunicação e queríamos dominar o mundo fazendo curta-metragens experimentais, meio Glauber Rochiniano “câmera na mão e idéia na cabeça”.

Mas entre adolescência e descoberta de mundo, efetivamente só comecei a pensar em um trabalho artístico na pós-graduação, quando descobri outro grupo de amigos e de professores que se tornaram amigos, que me expandiram possibilidades de criação e leitura de mundo. E foi lá que conheci o Lucas (Bambozzi), com quem tive o enorme prazer de trabalhar nos últimos 6 anos e que me mostrou outros universos, meu mentor. E nesse caminho o caminho se fez, fui descobrindo meus interesses, técnicas, pessoas…

EL: quando você trabalha com vídeo e vídeo instalações, qual é a importância do tipo de equipamento que você usa para o resultado do seu trabalho?

P: As ferramentas devem se adequar a sua idéia, ao que se quer mostrar. Isso em um universo perfeito, o que não existe. O que existe é uma equação entre conceitos e possibilidades, tanto financeiras, quanto de espaços expositivos e tempo.  Gosto muito da galera de teatro, que me ensinou como resolver questões que poderiam ser complexas com uma fita crepe! Ou com um barbante, algo simples. Ferramenta não deve ser limitadora de trabalho, mas tem trabalhos que sem um mínimo não pode existir. Entende?

EL: como você começou a construir vídeo projetores?

P: Elaborei essa proposta especialmente para o Labmovel, pensando em tecnologias móveis a serem construídas. Vem de uma cultura DIY (do it yourself = faça você mesmo), da vontade de montar e desmontar coisas, de entender como as coisas funcionam. Mas o interesse específico por vídeo projetores veio de trabalhar com eles e de ensinar sobre vídeo, ficava aquela pulguinha atrás da orelha: mas como? E assim começou a pesquisa, que ainda é bem recente e cada vez que começo outros universos se abrem.

EL: o que mais é possível reinventar com materiais que achamos que é lixo?

P: Hum… depende. Em meio a cultura da obsolescência talvez muito e talvez quase nada. Penso que deveríamos ter mais o costume de consertar antes de descartar, que vem de um pensamento do consumo do que se necessita, de buscar melhores materiais. Hoje conseguimos reaproveitar um tanto de equipamentos antigos, como os retro projetores, porque eram feitos de metal, com lentes e espelhos incríveis. Mas não tenho tanta certeza sobre os novos materiais que saem das fábricas.

De um lado existe a renovação: reaproveita-se peças, containers, reconstrói de outra forma. De outro existe a possibilidade do sucateamento. Mas existe um limite para esse reaproveitamento e sucateamento, é necessário que a própria indústria seja capaz de pensar em um produto e seu ciclo de vida, não só na biodegradação, mas em como esse material poderá ser algo outro depois de sua utilidade primeira ter sido esgotada.

EL: esta nova série de oficinas são feitas por mulheres. Você acha que na arte e tecnologia há poucas mulheres?

P: Não gosto muito das discussões sobre gêneros, acho que são separatistas e não muito construtivas. Mas acho sim que, comparativamente, há muito menos mulheres que homens em funções técnicas no geral. E arte e tecnologia demanda pensamento e ações mais técnicas. Mas já é percebível uma mudança desse esquema. Hoje encontram-se muitas mulheres em hacklabes e cursos, acadêmicos ou não, técnicos. E isso traz muitos benefícios para as áreas, além de um equilíbrio! Um dos benefícios que vejo é ter uma visão mais sensível e abrangente. Muitas mulheres chegam ao desenvolvimento digital a partir, por exemplo, de tecnologias vestíveis, que tem a ver com bordar, costurar, delicadezas… pensar no conforto e na usabilidade. E é justamente esse tipo de interface que tem mudado o mundo, com interfaces que nos mediam com o mundo digital cada vez mais intuitivas.

EL: Você acompanha o Labmovel desde o início. o que mais gosta no projeto?

P: Além do charme absoluto da kombosa rsrs gosto um tanto da idéia de pensar novas formas de educação e comunicação. Gosto muito da idéia de juntar pessoas da comunidade em praça pública, em retomar esse olho no olho com nossos vizinhos e da vontade de dividir uma técnica com um ar informal, de brincadeira.