Acordar ouvidos dormentes: oficina com Vanessa de Michelis expande a percepção dos participantes para reconhecer sons ao redor.

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A atividade escolhida para fechar este ciclo de oficinas do Labmovel, é com Vanessa De Michelis, uma artista fascinada por som e os conceitos de paisagem sonora.

Em um dia de frio e chuva do inverno paulistano, o Labmovel seguiu viagem para o próximo e último destino do mês de Junho: o Parque Ecológico do Tietê, na zona Leste da cidade, uma área bem distante das regiões preferidas por instituições de arte.

Estar em um parque na periferia, longe do grande e movimentado centro de São Paulo, não diminuiu o ruído que escutávamos. Mesmo assim, quando Vanessa pediu que escrevêssemos uma lista com os sons e as imagens que lembrávamos, a lista de imagens era bem maior que a dos sons. E os poucos sons que lembrávamos, estavam ligados ao que tínhamos visto, como sons dos passarinhos, por exemplo.

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Isto porque, explica a artista, a escuta das pessoas, em geral, fica em um estado de dormência, e esse estado só muda quando escutamos sons que estamos condicionados a entrar em estado de alerta, como ao ouvir o som de uma buzina, ou uma sirene. Mas, os ruídos comuns ao dia a dia na cidade, passam praticamente desapercebidos.

Depois desta primeira introdução, com nossos ouvidos quase que em alerta o tempo todo, Vanessa nos explicou que diferentes áreas do conhecimento se dedicam ao estudo dos sons e paisagens sonoras: a física, a antropologia, a sociologia. Um exemplo mencionado por Vanessa é o de sons que estão em extinção, principalmente em áreas mais afastadas das cidades.

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Em um segundo momento durante a oficina, fizemos um passeio carregando gravadores de som com fones de ouvido para gravarmos e escutarmos os sons ao mesmo tempo. A ficha de uma das participantes, que na primeira parte da oficina ficou vazia, desta vez havia uma longa lista descrevendo as coisas que ela ouviu e lembrou. O que pudemos perceber com o processo de fazer uma lista, que é justamente a primeira conclusão sugerida por Vanessa, é que a partir do momento em que ativamos a nossa percepção sonora, nós também vemos mais coisas, portanto a lista ficou mais longa em ambos aspectos: visuais e sonoros. E com os gravadores, sons que geralmente não percebemos, como nossas pegadas, nossos movimentos, gestos e respiração ficaram mais evidentes em relação a primeira vez que escrevemos a lista. Outra observação foi que com o microfone você escuta coisas que não consegue ver, e por isso começa a procurar de onde veio o som, como pessoas conversando a distância.

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Na última parte da oficina, a artista nos mostrou que o fato de se escutar, nos faz interpretar a realidade de uma determinada forma, e isso pode acontecer de diferentes maneiras: escutando uma música, ou sem escutar absolutamente som nenhum, ou tentando escutar quase tudo. Por isso, a sugestão foi a de que fizéssemos uma caminhada ouvindo um som que ela preparou anteriormente. Escutando essa espécie de “áudio guia”, os participantes tiveram, individualmente, uma nova percepção do parque naquele dia chuvoso.

Assim, com os ouvidos agora menos dormentes, preparamos o Labmovel para voltar para a grande cidade e ser bombardeado de novos estímulos sonoros.