Gente que nunca mete a mão na massa e sempre tem as unhas limpas

O artista e professor Mario Ramiro fala com o Labmovel sobre a oficina que vai ministrar ao lado de Bruno Schultze neste final de semana em Campinas, arte, tecnologia e cidade.

 

 

– Conte um pouco sobre a sua pesquisa sobre fotografia encenada?

 

A minha prática com essa forma fotográfica iniciou-se nos anos 80, com o grupo 3NÓS3. Apesar de termos atuado de forma intensa no contexto das intervenções urbanas, o grupo também tem alguns trabalhos de fotografia encenada. Quando me mudei para a Alemanha, onde desenvolvi o meu mestrado em arte e mídia, também produzi diversos trabalhos onde o corpo surgia como um elemento de uma “performance” orientada para a fotografia e o vídeo. Mais tarde, quando voltei para o Brasil e iniciei meu trabalho como professor do Depto. de Artes Plásticas na ECA-USP, dei continuidade à essa pesquisa na disciplina de Práticas Performativas. A experiência é muito bacana, onde os alunos são levados à conceber uma cena para ser fotografada. Os resultados são, em sua maioria, muito estimulantes.

 

– Quais foram os trabalhos de intervenção urbana mais interessantes que vc fez, que seu coletivo fez e que vc viu de algum outro artista brasileiro ou não?

 

O 3NÓS3 tem uma produção que ainda é, em grande parte, desconhecida do público, pois até hoje não temos um livro sobre os trabalhos do grupo, mesmo levando-se em conta as diversas pesquisas acadêmicas já realizadas sobre o grupo. São diferentes tipos de intervenção, onde a cidade, o espaço urbano era um elemento central na poética de trabalho do grupo. Tanto o Rafael França (1957-1991), o Hudinilson Jr. (1957-2013) e eu temos uma produção onde o corpo, o nosso corpo, surge como um elemento central das diferentes abordagens encontradas na produção de cada um de nós. Nos últimos vídeos do Rafael a temática do amor homoerótico e da morte são centrais. Na produção de xerox e nos cadernos de colagem do Hudinilson, o corpo erotizado também é o ponto focal de sua produção. E no meu caso o corpo surge como figura que passa da dimensão do mundo concreto para o mundo espiritual e também mergulhada nos prazeres da carne.

 

grande queda

 

– Qual é sua relação com tecnologia? 

 

Desde os anos 80 a questão da tecnologia foi sendo incorporada de forma natural à minha produção, como a de muitos colegas de minha geração. O xerox era visto por nós no início dos anos 80 como uma forma de “gráfica eletrônica”. Depois foram os sistemas de telecomunicação que foram adentrando cada vez mais o nosso dia-a-dia. Finalmente o meu interesse se voltou para a fotografia – a matriz das chamadas imagens técnicas. Hoje não me interesso mais em discutir uma arte produzida ou não com novas tecnologias. O mais importante de uma escultura não é a pedra ou o martelo, mas o que se faz com eles.

Gran ectoplasma

 

– E desde quando vem seu interesse em unir arte à tecnologia?

 

Como falei, desde os anos 80. Eu vivi praticamente toda a década de 90 na Alemanha, para onde fui realizar o meu mestrado. Lá comecei a trabalhar com fotografia e laser, como também comecei a trabalhar com computadores e me dediquei ao longo de vários anos à criação para a mídia impressa. Isso porque me interesso bastante pela produção de livros de artista.

 

– Na sua opinião o que falta no brasil para que as pessoas ocupem mais áreas públicas?

 

Projeto. Um professor alemão costumava dizer (em inglês): “no project, no problem”. Ou seja, quem não tem projeto, não tem problema. Tem muita gente que não tem disposição suficiente para resolver problemas, ou se meter em lugares onde não foram chamados. Esses vão virar artista de escritório. Gente que nunca mete a mão na massa e sempre tem as unhas limpas.

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Novas oficinas do Labmovel

As atividades para este mês de Junho foram pensadas para um público jovem, e tem como tema a “identidade” e o “lúdico”. A programação do Labmovel envolverá 4 oficinas, uma a cada final de semana, espalhadas pela cidade de São Paulo, nos bairros de Paraisópolis, CEU Jaçanã, CEU Formosa, e parque ecológico do Tietê.

A primeira oficina (dia 8) com as artistas Lea van Steen e Raquel Kogan despertarão o olhar dos participantes do CEU Paraisópolis através de objetos do cotidiano em uma oficina de vídeo. Na segunda oficina (dia 16) a artista Paloma Oliveira proporá para os visitantes do CEU Jaçanã a construção de vídeo-projetores DIY com materiais baratos e equipamentos domésticos, que se encontram em desuso. Já a terceira oficina (dia 27), acontecerá no CEU Formosa e investigará de forma poética sobre o que somos na rede ou sobre o que a rede nos diz que somos, com o título de “Identidados” e mediado pela artista Denise Agassi. Para a última oficina (dia 30) a artista Vanessa de Michellis irá usar dados sonoros para propor discussão sobre as possibilidades e aplicações políticas, didáticas, ecológicas, artísticas e musicais da caminhada sonora e da escuta criativa.

oficina 1: Oficina de Vídeo

artista: Lea van Steen & Raquel Kogan
objetivo: Despertar o olhar dos participantes nas práticas áudio-visuais, através de objetos do cotidiano como panelas, espelhos, jarras, água, vidros, relógios, porta-retratos e etc.
data: 08 de Junho das 12 às 16 horas
local: CEU Paraisópolis – Rua Doutor José Augusto Souza e Silva, s/nº – Jardim Parque Morumbi – São Paulo/SP. Tel: (11) 3501-5660

oficina 2: Projetores portáteis DIY

artista: Paloma Oliveira
objetivo: Esta oficina propõe a construção de vídeo-projetores DIY com materiais baratos e equipamentos que se encontram em desuso em sua casa  e no seu bolso.
data: 16 de Junho
local: CEU Jaçanã

oficina 3: Identidados

artista: Denise Agassi
objetivo: Investigação poética sobre o que somos na rede ou sobre o que a rede nos diz que somos
data: 27 de Junho
local: CEU Formosa

oficina 4: Andante: Caminhada sonora e escuta criativa

artista: Vanessa de Michellis
objetivo: Através dos dados sonoros captados discutiremos possibilidades e aplicações políticas, didáticas, ecológicas, artísticas e musicais da caminhada sonora e da escuta criativa.
data: 30 de Junho
local: Parque Ecológico do Tietê

Labmovel no site Educacao e Cultura Digital

Gisela Domschke, uma das idealizadoras do Labmovel, fala sobre a proposta do projeto e as oficinas realizadas em 2012.

Categoria: NotíciasSlideshow

Educação e Cultura Digital

“Nosso objetivo  com as oficinas não é apenas o de ensinar ao participante uma técnica específica, mas principalmente a de estabelecer um novo espaço de trocas de conhecimento  e experiência”, afirma Gisela.

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É uma kombi? Uma casa sob rodas? Tem telão, cadeiras de praia, computador, fogão. E um monte de “geringonças”, restos de materiais, caixa de papelão, fios, e até um gerador. Com tudo isso e mais um pouco, o Labmovel é um laboratório itinerante de mídias móveis, que leva a todos os cantos da cidade exposições e oficinas, possibilitando atingir um público diferente daquele que frequenta museus e galerias.

Clique aqui para ler a entrevista de Gisela Domschke, co-idealizadora do Labmovel, em que ela comenta as ações realizadas em 2012 e comenta um pouco sobre o que vem por aí.

Gisela Domschke fala do Labmovel

Gisela Domschke, idealizadora do Labmovel ao lado de Lucas Bambozzi, fala sobre as ações que rolaram este ano e o que vai acontecer no ano que vem.

Quais foram suas impressões do Labmovel? 

Ao explorar novas formas de mediação entre o artista e o público em áreas da periferia, onde o acesso a arte e tecnologia é ainda escasso, nosso objetivo é o de criar novas conecções e trocas de experência – tanto para o artista quanto para o público. O aspecto da mobilidade oferece uma alternativa aos espaços institucionais e seus laços por demais fixos e estáveis.

De todas as ações teve alguma mais especial? E por que?

A oficina do Panetone em Capão Redondo funcionou muito bem devido ao apoio que tivemos da Casa do Zezinho. A colaboração com uma organização local facilita a divulgação e a organização da oficina.

A conversa sobre ocupação de espaços públicos foi tema constante este ano. O que ainda falta para que a cidade seja um ambiente ideal para as  pessoas?

Uma política que seja focada no espaço público – em termos de transporte, urbanização e programas de atividades sócio culturais.  Infelizmente nossa política ainda privilegia a especulação imobiliária em seus projetos urbanísticos.

Quais outros artistas vocês querem incluir nos próximos rolês do Labmovel?

Para 2013 pretendemos realizar uma série de oficinas com artistas mulheres.  As oficinas terão como foco o jovem e apresentarão como temas a questão da “identidade” e do “lúdico”. Para isso, vamos colaborar com organizações locais de cada região. Estamos, no momento, agenciando parcerias para que o programa se torne realidade.

E tem alguma outra coisa que você queira falar?

Nosso objetivo  com as oficinas não é apenas o de ensinar ao participante uma técnica específica, mas principalmente a de estabelecer um novo espaço de trocas de conhecimento  e experiência.

Panetone fala sobre a oficina #4

Como começou a sua história com o Labmovel?

Panetone: Era uma vez… Fiz uma oficina no artemov edição Belém. Como sou de Porto Alegre, me mandaram para o lugar mais longe possível. Em Belém, partimos da sucata eletrônica variada na tentativa de combinar elementos e criar novas formas gerar áudio e vídeo.

Quais foram as diferenças das duas cidades?

Panetone: Acho que em Belém estávamos em um ambiente mais controlado. No Capão Redondo, era ritmo de aventura todo instante.

Em Belém havia tanta criança?

Panetone: Em Belém tinha crianças também. E alguns eram artistas bonequeiros.

Como foi a apresentação final do Capão Redondo?

Panetone: Foi uma grande celebração, uma quebra de mito. Bastante gente não estava entendo nada mas quem se aproximou conseguiu ler o código e começar a entender um pouco das possibilidades do fazer, que tudo não passa de linguagem. E que peças eletrônicas e uma laranja vem da mesma terra.